quinta-feira, 5 de abril de 2018

Postura olímpica



Estávamos numa sessão do Amana Coaching Insights quando Oscar Motomura fez algo que sabe construir com maestria: provocou a audiência com suas perguntas e equações aparentemente impossíveis. Na minha participação queria saber a opinião dele sobre como empresas e governos devem fazer para lidar com a síndrome da grama do vizinho, que por estar mais verde (nem sempre é verdade) acaba inevitavelmente trazendo comparações?

Em sua resposta ele me ajudou a ganhar mais algumas milhas de conhecimento. Disse que mais importante do que comparar nosso trabalho com essa ou aquela performance devemos optar por uma Postura Olímpica. Ou seja, trabalhar, suar, treinar, aprender, competir buscando superar as próprias marcas. Não necessariamente a competição direta com a marca rival, a cidade do outro, o Estado vizinho. São nossos próprios desafios que devem ser transpostos. O pódio terá muito mais sabor se tivermos a convicção de que chegamos ali batendo nossos próprios recordes, suplantando nossos limites.

No dia seguinte, após essa aula on-line, já comecei a compartilhar com amigos esse conteúdo tão precioso. Que tem uma profundidade incrível e ao mesmo tempo uma simplicidade atlética. Ora, é de superação que estamos falando. Não necessariamente aquela que precisa de um guia incentivando ou um líder ameaçando a punição infernal. A postura acima é a de alguém disposto a encarar diariamente suas fraquezas. Uma pessoa capaz de fazer um raio-x de seu próprio sistema operacional. Ver o que está funcionando e o que tem dado defeito e derrubado as marcas. Qual o motivo do cansaço, por onde anda aquele ânimo que um dia existiu.

Adotar uma postura olímpica pode servir para a empresa. Seus agentes desnudando sua própria caminhada até ali onde chegaram. Foi rápido o crescimento, ou existe um processo de fadiga muscular? Um dia os números já foram melhores? E o clima no ambiente profissional, já esteve mais com cara de linha de chegada ou dá pinta de abandono das pistas?

Creio que tal provocação sirva para o setor público também. Dá uma certa dor saber que cidades dão certo e cidades fracassam. Países tornam-se referência de cultura, respeito à dignidade humana e desenvolvimento social e países caem no meio da maratona e mal conseguem prosseguir com passos vacilantes.

Gente também! Eu, você, nossos colegas de trabalho ou membros da família. Talvez nosso contexto esteja carecendo de um olhar mais apurado para o que diz o relatório pessoal de resultados diários. E seja essa a hora de começar um novo preparo, para vencermos a nós mesmos.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Amigo é planta pra se cuidar




Jamais pensei que depois dos 50 fosse começar a fazer coisas que nunca me imaginei fazendo. Correr, por exemplo: eis uma atividade que me dava calafrios no passado e hoje aquece meus dias. Comecei em ritmo lento e à medida que a quilometragem aumenta o prazer transpira junto. Mas foi outra nova prática que me inspirou a falar sobre amizade.  A vida toda com uma certa  gastura de mexer com terra não me impediu de iniciar o plantio de pimenta. Sim, isso mesmo, as pimentinhas nos vasos entraram em minha rotina. Enquanto cuidava delas me peguei pensando na necessidade que temos de cultivar bem os relacionamentos. Mais especificamente, os amigos.

Claro que a vida muda e nos leva a mudar de lugares, cidades e, naturalmente, de amizades. Muitas delas ficaram lá naquele passado onde eu não corria nem cuidava de plantas, outras permanecem vivas, apesar da distância.  E há aquelas novas que brotam, florescem, nos influenciam, cativam e dão frutos. Nem todos saborosos e maduros, mas isso também passa pelo modo como cuidamos do outro.

Levados cada vez mais a um mundo egocêntrico e frágil, temos aprendido a viver, comer, dormir, passar o tempo sem muito esforço. O suor do rosto que pouco serve para grande parte das atividades atualmente,  fica longe de ser um ingrediente saudável para a manutenção de relacionamentos. Uma pena! O não-esforço pelo amigo pode representar um nenhum-esforço dele num dia de solidão e medo da gente. Tudo é cultivo. Até as Escrituras tratam da semeadura e como podemos colher bem se o plantio e o cuidado forem efetivos, verdadeiros, puros e permanentes.

Planta que brota só na superfície não aguenta vento, sol e tempestade

E como saber se estou cultivando bem essa amizade?

Primeiro é preciso definir bem o conceito. Não são os 152 conhecidos do face ou metade disso do insta que você pode chamar de amigos. O poeta já dizia que amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves. Referindo-se a uma antiga expressão da língua portuguesa que se referia ao hábito da monarquia de guardar os objetos mais valiosos a quatro chaves, na verdade, na mão de quatro funcionários diferentes. O numero sete foi incorporado à expressão por conta de sua conotação cabalística. Aquela coisa de ser o numero da perfeição. “Por favor guarde isso a sete chaves”, diziam os antigos patrícios, incorporando isso aos segredos que compartilhavam com os amigos de verdade.

Ora, se amigos são tão valiosos, quer dizer que são caros. Merecem um olhar atento. Um cuidado constante. Não necessariamente diário. Lembre-se das plantas. Nem todas precisam ser regadas todo dia. Aliás, veja lá se não está aguando demais. Muita conversa em cima do jardim pode murchar até o cacto mais resistente. É preciso conhecer com quem estamos lidando. Qual a medida da atenção. Aprender a ouvir, a sentir, a compreender o tipo da terra, o tempo do crescimento, a necessidade de luz e de sombra. Como a plantinha da amizade está se desenvolvendo.

Vai que você esqueceu que ela existe, ou existiu um dia.

Não, não é o whatsapp que vai resolver isso. Ele pode até encaminhar o reencontro. Mas não da pra ele substituir o abraço, a voz presente, o silêncio de uma comunicação não-verbal de quem se conhece de verdade. Jamais o belo aparelho que você carrega no bolso terá as folhas bem verdes e o fruto saboroso.

Pense bem! Reflita! Como anda o seu jardim de amigos? Vai me dizer que essas plantas todas são de plástico?

terça-feira, 13 de março de 2018

Cansaço daqueles


  
   
Sim, o desânimo acaba chegando um dia. Não há quem não tenha sido visitado por ele. De várias formas, brutalmente ou em conta-gotas, o abatimento mental começa lá pelo alto da montanha que construímos e como uma avalanche desliza destrutivo ladeira abaixo.

Alguns sobrevivem bem, reconstroem sonhos, recomeçam a subida e curam as feridas de forma quase milagrosa. Outros sucumbem, não conseguem mais, simplesmente. E há ainda aqueles cujo deslizamento não foi tão aparente. Nem teve forma de avalanche. O desmoronamento emocional aconteceu tão lentamente que na aparência tudo vai bem. Talvez esses sejam os que mais sofram. Afinal, não saber que o próprio mundo cai é não saber da própria vida.

O que nos leva a um tipo de abatimento com poucos sintomas? Como perceber que o cansaço chegou, mesmo dentro de uma rotina tipo no-break?

Claro que há especialistas em várias áreas de competência emocional, capazes de discorrer sobre fadiga mental e espiritual com eloquência e sabedoria. Muitos deles encontram soluções e cura, com ou sem ajuda química. Mas e se o cansaço for tão grande que até mesmo dos mestres no assunto já estejamos enjoados?

Não censuraria ninguém refratário a alguns gurus. Vivemos um período de proliferação em massa de gênios curadores, coachings sorridentes, líderes salvadores e até mesmo máquinas programadas para dar mais do que receber...

Cansamos muito de tudo isso também!

Pode ser que a opção ideal então seja uma profunda reflexão sobre a simplicidade. Interrogando-nos sobre valores que perdemos e aquela pureza que caiu do varal e foi pisoteada.
Li hoje que o Balão Mágico vai reunir o grupo 35 anos depois. Acho que vou pegar carona nessa calda de cometa e me reencontrar com a criança que amava a vida e acreditava no futuro. Mesmo que isso me obrigue a encontrar outra montanha.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018


O pai do Bonner

Qualquer pessoa com o mínimo de integridade e formação ética repudia o que um usuário da internet postou insistentemente contra a família do jornalista William Bonner. A ponto do famoso homem do Jornal Nacional tornar público o seu desabafo e total descontentamento. Não é pra menos. Bonner colocou em horário nobre um assunto que precisa mesmo de ibope. Por conta do debate e sua necessidade de ser aprofundado, e também  porque é hora de que algo mais efetivo seja feito. Censura não, postura sim.

Ataques  enfurecidos e a escancarada queda de valores que experimentamos no país, tem feito de determinadas redes sociais um verdadeiro vale de sangue. Ali, no sopé da montanha cada dia mais vazia de gente que pensa, descem  milhões para ofender, mentir, criar dor e caos, em nome de ideais que a maioria nem sabe do que se trata ou se é naquilo que acredita mesmo. Entram nessa onda sem saber surfar e possivelmente sem saber nadar também.

Afinal, em que nível está nossa mente e até que ponto a multidão raivosa tem nos influenciado? Como está nosso perfil? Talvez, se olharmos nesse espelho, ali encontraremos  manchas, cravos, espinhas, pelos encravados e rugas de tristeza que temos ou causamos...

Lamentável, afinal esse é um ambiente que tem tudo para promover o bem e em muitos casos tem se tornado uma ferramenta extraordinária de mudança social, solidariedade e justiça. E pode melhorar! Quando nos tornarmos mais autorais, mais humanos e capazes de evoluir em busca do melhor para todos, a partir da nossa própria transformação.  

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Fraturamento

A palavra que dá nome a esse texto parece ter sido escrita de forma errada, mas ela nasceu assim mesmo. Trata-se de um sinônimo de quebra, fratura, rompimento, ou o mais atual de todos: disrupção.

Empresas, clubes, governos, escolas, conglomerados inteiros tem se deparado com a necessidade de romper, quebrar paradigmas, provocar uma disrupção eficaz e plena.
E essa eficácia passa pelo caminho da decisão individual. Se não partir de quem vive o ambiente, o processo não vai passar do território das palestras, cartazes, mensagens e boa vontade de alguns.

Talvez  o elenco de temas a serem escolhidos para romper com os maus hábitos, impedir o fracasso do projeto no qual estamos, ou fraturar o que está torto para recolocar no lugar seja gigantesco. Infelizmente o acúmulo de manias e excesso de jeitinho tem contaminado estruturas inteiras, a ponto de parecer que não há uma saída.

Essa disrupção, portanto, é eminentemente individual.

São aqueles costumes que desenvolvemos e acabaram virando “de estimação”. Comportamentos que carregamos e  não percebemos, por causa da rotina e falta de auto-sincera-avaliação. Que  implicam diretamente em uma queda de quase tudo; passando pela saúde física e emocional, chegando aos resultados profissionais e pessoais. 

O fracasso do todo começa nas derrotas diárias de cada um.

Outra disrupção  que é necessária e geralmente desprezamos é a da quebra de relacionamento com quem nos faz mal. Pessoas que carregam aquela nuvem chuvosa na cabeça e com suas trovoadas e tempestades tem o péssimo dom de nos colocar pra baixo. Às vezes com a fachada de amigo são danosos ao nosso emocional. Atingindo o bolso também. Claro que a tolerância o amor ao próximo e outros requisitos básicos que mantém as amizades não estão incluídos aqui. Falo de não-amigos, pessoas que estão ali só por causa delas mesmas. Romper é preciso!


Por fim, mais uma  disrupção importante. Aquela que nos faz ficar apegados às crenças e preconceitos, impedindo-nos de ver com transparência o que está dentro e fora de nós mesmos. Quebrar essas muros internos, podar uns galhos secos e se abrir para algo novo, melhor e mais repleto de vida, pode ser algo extraordinário. Desde que o façamos com entendimento e clareza. Desde que comecemos a romper sem medo.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Isso é coisa da sua cabeça


Em algumas conversas a frase acima aparece. Geralmente em tom de censura. Querem nos dizer que aquilo que pensamos não tem sentido, não vale a pena, deve ser deletado; simplesmente porque é coisa da nossa cabeça. Quem já não foi paralisado por uma voz familiar dando essa sentença?
Mas será que o  “coisa da sua cabeça” não é o caminho certo a ser seguido? Talvez aparentemente a ideia soe um pouco original demais, ousada, meio sem pé e sem cabeça. Não significa dizer que tenha que ser descartada. Algumas das mais brilhantes criações teriam morrido se seus autores fossem congelados pela acusação de ter algo dentro de suas cabeças.

Sim, claro que precisamos entender o mundo ao redor, suas convenções e o modo como as coisas funcionam. Princípios éticos, normas, verdades e possibilidades de cada segmento e contexto. Mas mesmo assim não podemos pura e simplesmente nos deixar levar pela socialização e padronização de ideias, conceitos, dogmas e paradigmas.
Talvez o que esteja na sua cabeça seja realmente transformador. Poderá trazer avanços, cura, libertação, alento, felicidade...

Por um momento me imaginei uma criança cheia de sugestões para o fechado e sinistro mundo dos adultos, onde os sonhos não tem vez. Essa criança criativa não deveria ter estagnado. Aliás, luto para que ela esteja viva e cheia de energia dentro de mim. Não posso acreditar e aceitar que sendo coisa da minha cabeça fique restrita e vegetativa.

Te convido a pensar sobre você nos dois mundos: naquele que está louco para expor os pensamentos e tentar, tentar, tentar até acertar, e no outro, o que simplesmente rechaça as doses de originalidade e bloqueia qualquer sinal de ambiente criativo e inovador, a partir das cabeças que o cercam.

Cuidado, isso pode ser coisa só da sua cabeça!


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Sede de vingança

Num mundo com fome como o nosso, existe também um cenário de sede. Vários tipos de sede. Aquela mais conhecida, por conta da falta de água em várias partes de um planeta desigual e uma  outra, tão perigosa quanto: a sede de vingança. Andamos tão atravessados de medo e abarrotados de violência que quando menos percebemos já estamos com as armas prontas para aniquilar. Não necessariamente no sentido físico, embora às vezes a gente odeie por quase um segundo, como diz Herbert Vianna, e nesse microtempo acabemos com vontade de socar alguém mesmo.

Só que os rompantes, na  maioria das vezes contidos por quem ainda consegue ser do Bem, vão se acumulando. Se não dermos um jeito de deletar os pequenos ódios de cada dia, uma hora eles se transformam em nosso Stranger Things. Nessa hora da raiva pode ser que surjam palavras e atos com um desejo brutal de saciar a sede perigosa de vingança. Só que muitas vezes, quando pensamos em matar, morremos e sofremos mais interiormente.

É preciso aprender a observar como nosso sistema operacional funciona. Até que ponto somos capazes de suportar e buscar ajuda para aprender a desenvolver uma maior resiliência.

Não estou falando de engolir todos os sapos, aguentar calado a injustiça, nada fazer por nada fazer.
Estou sugerindo que não desçamos tanto ao vale assim. Não sejamos beligerantes e cheios de rancor o tempo todo. Que consigamos compreender que aquela dose venenosa de vingança pode ter um efeito curto e temporário e mais tarde só nos fazer mal.

O pensamento aqui é de que lembremos mais as vezes em que também fomos perdoados. Ou consigamos recordar situações e gestos que merecem gratidão. Muitas vezes protagonizadas por aquele alguém que agora pode estar  nos causando dor.
Se for possível matar essa sede dolorosa com goles de água saudável e um repensar com calma sobre tudo e todos, façamos assim.

Saúde!                                                                
                                                        
                                                                      Benedicto Domingues Júnior/APG Sênior Amana Key